Um Tributo a Eric Serra

- Entrevistas -


Atire no pianista

Transcrição da revista Rock and Folk, Maio de 97, páginas 60-63
Por Eric Dahan

Desprezado pela crítica, aclamado pela geração "Imensidão Azul" - que comprou três milhões de cópias da trilha sonora original -  Eric Serra, conhecido como "o compositor dos filmes de Luc Besson", falou sobre o filme "O quinto Elemento" e sobre seu retorno ao rock.

São mais ou menos 4:30 da tarde no Sunset Plaza, na Sunset Boulevard, um local cheio de bons restaurantes, um pouco acima de Los Angeles. "Clafoutis", "Le Petit Four", "Chin Chin"... alguns cafés sob o sol, cheios de homens de negócios, jovens atores aproveitando sua juventude e criaturas belas e charmosas cheias de silicone e roupas sensuais ao vento.
Eric Serra parecia nunca chegar. Mas agora o vejo eu seu carro preto conversível, usando óculos escuros. Ele me saúda. Vestindo uma camisa branca, Eric Serra chega até minha mesa e pede uma salada e um copo de Sancerre à garçonete-atriz, uma jovem bela e muito sexy.
A trilha original do filme "O Quinto Elemento" foi gravada em Paris, com algumas partes sinfônicas captadas no estúdio Abbey Road, mixada e editada na "Cidade dos Anjos". Esta é uma mega-produção de ficção científica com um custo de 90 milhões de dólares. Bruce Willis, Gary Oldman e Mathieu Kassovitz são algumas das estrelas do filme que abriu o Festival de Cannes de 97. Para mim era impossível assistir ao filme, uma vez que as imagens ficariam em segredo até o Festival de Cannes. Serra não quis dar nenhuma pista sobre a história. Eric Serra nasceu em 9 de setembro de 1959, em Saint-Mandé, na França. Seu pai foi o compositor ("Meu pai grafou seu nome Claude Cerat porque iniciais dobradas são quentes") que se tornou o inventor do estilo "flash" ("Canções de humor muito curtas, durando apenas alguns segundos"). Sua mãe não trabalhava, ficava em casa. Eles se mudaram para o sul da França. "Em casa, meu pai ouvia boa música: clássicos, rhythm'n'blues, Jacques Brel. Ele também tocava guitarra. Ele me deu meu primeiro violão no meu quinto aniversário e uma guitarra elétrica quando fiz onze anos".

Em 1970, o pequeno Eric Serra vivia apenas para o rock. Ele ouvia, nota por nota, os solos de músicas como "Sympathy for the Devil", "Get Yer Ya-Ya's Out!", algumas canções de Ritchie Blackmore e Alvin Lee. Eric também também era fã de Led Zeppelin: "Era estranho, o Led Zeppelin era a única banda que eu não ouvia apenas para reproduzir os solos. Eu era um super-fã, mas eu não queria gostar de Jimmy Page, não sei porque". Jazz rock e Jeff Beck também o interessavam. "Super Escola" (explica Eric Serra, imitando a voz de um policial perseguindo uma gangue de rappers). Aos quinze anos comecei a tocar com uma banda e era muito legal fazer guitarra solo. Nós não gostávamos de cantores naquela época. Nós não tínhamos interesse em um cantor. De fato, eu cantei pela primeira vez na trilha sonora de "Imensidão Azul" por acaso. Gravei algumas demos com um cantor norte-americano que vivia em Paris. Mas Luc Besson, Corine de Teléphone e todos os meus amigos que ouviram ambas as versões preferiram a minha. Eu não era um cantor profissional mas havia mais sentimento em minha versão. Foi assim que comecei a cantar. Foi excitante. Precisei de mais dez anos para finalmente gravar meu próprio álbum."

Então isso não era um sonho de infância?
"Sim. Na verdade, eu fiz muitos trabalhos em estúdio desde os 16 anos, mas eu não me considerava um músico profissional porque isso não era uma profissão real. Então isso não existia para mim. Eu não fazia relação entre o músico e a pessoa que gravava discos. Mas desde os 16 anos eu comecei a fazer algum dinheiro tocando música".

Alienígenas

Como você conheceu Luc Besson?
"Ele estava no estúdio com um amigo, Pierre Jolivet, que me pediu para regravar todos os solos de guitarra para um disco quase finalizado. Besson tinha 18 anos, assim como eu. Ele ficou muito impressionado, mas na verdade, toda minha vida eu improvisava quando tocava guitarrra. Quando Besson fez seu primeiro filme, alguns meses mais tarde, me pediu para compôr a música."

Depois, vieram "A Última Batalha", "Subway", "Imensidão Azul"...
"Sim, mas ao mesmo tempo, eu estava tocando baixo para Higelin de 1981 até 1988, do Cirque d'Hiver para Bercy. Eu compus e escrevi "Coup de Lune", "Manque de Classe" e "Victoria" para ele. Depois disso, fiquei dez anos sem tocar em um show. Eu não entendia a mim mesmo. Estava deprimido e dizia para mim mesmo: "Você tem tudo que um músico sonha - Imensidão Azul vendeu mais de 3 milhões de cópias, você tem dinheiro para fazer o que quiser, seu próprio estúdio para gravar no meio da noite se quiser..." Mas você sabe, Eu só fico feliz quando estou em turnê, tocando todas as noites. Eu comecei nos palcos aos 11 anos de idade. Quando parei o duro trabalho com Higelin, foi como para de fazer amor. Por isso agora minha prioridade é voltar aos palcos. Quando eu não quiser mais fazer isso, vou continuar a compôr música para cinema em algum lugar bem silencioso."

Mas o sucesso de "Imensidão Azul" não enlouqueceu você e Luc Besson?
"Nós nos divertimos muito na ocasião. Nós não imaginávamos que o filme pudesse alcançar o sucesso que alcançou. O sucesso não alterou nossa forma de trabalhar. É claro, nós aprendemos algo de novo a cada trilha sonora. Nós adquirimos mais experiência quando ficamos mais velhos. Temos mais cultura e coisas dentro de nós são refletidas na música (arranjos, etnias e ritmos). Eu ouço música clássica desde os 10 anos - Stravinski, Debussy, Ravel, Bartok - e apenas três trilhas sonoras incluem partes sinfônicas: "Atlantis", "O Profissional" e "Goldeneye". Eu sou auto-didata. Eu assumo alguns riscos e com o passar dos anos, minha técnica progrediu. Eu comecei a discernir entre os sons bons e os ruins. Percussões, por exemplo, eu mesmo toco, porque quero que soem como pop. Eu gosto de misturar sons étnicos e orquestra sinfônica. Eu gosto de usar qualquer coisa que faça barulho -  um violino, uma lata de lixo e uma flauta japonesa. Hoje eu gosto de fazer música real. Nós podemos adicionar qualquer coisa na música; tudo que se precisa é um pouco de gosto e ouvir o que queremos. Música deve ter relação com sentimento, com desejo. Não se pode compôr apenas para ser interessante. Sucesso ou não, isso não importa. "Goldeneye" foi o primeiro trabalho hollywoodiano que eu aceitei. Antes, alguém me sugeriu compôr trilhas para "Perigo em Alto Mar" e "Queda Livre" com Michael Douglas. Eu não recusei, mas já estava muito ocupado com o filme de James Bond. Foi incrível fazer essa trilha. Quando criança eu gostava muito de James Bond..."

Babilônia

Como você pode descrever "O Quinto Elemento"?
"O filme se passa no ano 2300. Existem humanos, alienígenas e naves espaciais... O que mais eu posso dizer? É bom... Em duas horas de filme, deve tocar aproximadamente 45 minutos de música. E para os créditos finais há uma música que estará incluída em meu disco solo (RXRA)."

Como é o seu trabalho solo?
"É difícil descrever... Eu não sei o que dizer. É rock, mas bom. E isso não diz nada... Não é como Stray Cats ou Sting, talvez seja mais como o rock de Peter Gabriel. Existem algumas influências clássicas e norte-africanas. Eu co-produzi o disco com Rupert Hine. Existem canções de amor - o que mais dizer? O amor de uma mulher, amor pela vida, amor pela beleza. No próximo ano eu estarei em turnê, Tenho uma grande banda comigo: dois bateristas, um percussionista e um tecladista. Estarei tocando baixo e guitarra, dependendo da música. Eu li muita literatura, que me ajudou a escrever as letras. Há três anos eu não lia. Agora li "O Alquimista", "As Cartas de Vincent Van Gogh a Théo", "Barjavel" e todo o trabalho de Prévert."

Música Techno?
"Eu escuto techno e também rap no rádio. É claro que o techno não é exatamente um fenômeno. Minha banda favorita de techno é o Massive Attack. Eles estão abrindo fronteiras para um novo estilo de música. Eu adoro Radiohead. Eu detesto os caras do Oasis e sua atitude. Eles não trazem nada de novo para a música mas, de vez em quando, até conseguem compôr algumas músicas boas."

Como é morar em Paris, depois de ter vivido cinco anos em Los Angeles?
"De dois meses para cá, eu acordo todas as manhãs com uma vontade irresitível de trabalhar. Em Paris, você acorda e está chovendo lá fora. Você tem apenas um desejo: voltar para a cama. Paris ficou doente com o tempo. As pessoas são depressivas. Isso suga toda a minha energia. A vida é cinza, dentro e fora das pessoas. Eu quero deixar Paris novamente."

Por alguma razão política?
"Razões políticas não influenciam meu desejo de ir embora... Na verdade, eu quero estar em algum lugar ensolarado, em uma praia. Aqui (em Los Angeles) eu tenho muitos amigos mexicanos, canadenses, europeus e americanos. É como uma Babilônia. É uma pena porque eu realmente gosto da vida."

Guarda-costas

Quais são seus sonhos: ter muito dinheiro? Pilotar um avião?
"É engraçado, como você sabe disso? Sim, de fato eu já fiz alguns cursos de pilotagem. Era um sonho de infância. A vida é curta, então temos que realizar nossos sonhos."

Místico?
"Sim. Eu participava de um grupo religioso há uns 15 anos, mas não direi a você qual. Eu aprendi algumas coisas, uma nova maneira de pensar. Mas havia uma espécie de "lado negro" no grupo, então decidi abandonar."

Como descrever Eric Serra em poucas palavras?
"Ah! Eu não sei, ainda não estou morto... Hum, agora eu sei... Respeito pela música. Eu sou muito consciente e meticuloso. Não há nada que eu respeite mais do que a música. Meu sucesso não é uma coincidência. Besson também trabalha duro, não apenas o talento, mas muito trabalho duro por trás do sucesso. Eu gostaria de ser lembrado como um trabalhador. Depois de assistir ao filme "Amadeus", eu não era mais capaz de compôr nada. Mozart é graça permanente. Eu me lembro que, ao sair do cinema, eu estava com alguns amigos e não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Eu estava chorando muito. Foi a única vez em que um filme me influenciou de tal forma. Desde os 10 anos, eu tenho trabalhado 18 horas por dia. Eu gosto de trabalhar e ganhar dinheiro. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos de idade. Vivi toda a minha vida tendo dois amigos e minha guitarra como únicos confientes. Por isso a música é a coisa que eu mais respeito neste mundo. Eu não podia acreditar quando estava no mesmo estúdio por onde passaram   Robert Plant, Michael Jackson e seus onze guarda-costas, Madonna e Ringo Starr. É assustador quando todo mundo quer trabalhar comigo. Eu nem vi como isso aconteceu. Para mim, eu serei sempre aquele garoto de dez anos que toca guitarra sozinho no quarto."

Transcrito do francês para o inglês por Dominic Verzon Villeneuve

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